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Quantos Dentes Tem um Gato?

Quantos Dentes Tem um Gato?

Se você quer saber rapidamente quantos dentes tem um gato, essa curiosidade simples esconde uma área de estudo bastante ativa dentro da medicina veterinária, a odontologia felina vem sendo pesquisada a fundo nas últimas décadas, justamente porque problemas na boca afetam a saúde geral do gato muito mais do que se imaginava.

Um gato adulto tem 30 dentes. Mas vamos além do número e explorar o que a ciência veterinária já documentou sobre a dentição felina, os problemas mais comuns e o que realmente funciona na hora de cuidar da boca do seu gato.

Quantos dentes tem um gato adulto

Um gato adulto saudável tem 30 dentes permanentes, organizados na chamada fórmula dentária 2 × (I3/3, C1/1, P3/2, M1/1): 12 incisivos, 4 caninos, 10 pré-molares e 4 molares. Essa nomenclatura é padronizada pelo American Veterinary Dental College (AVDC), entidade responsável por organizar a terminologia usada por dentistas veterinários no mundo todo.

Um detalhe pouco conhecido: nem todos os dentes têm a mesma estrutura interna que o senso comum sugere. Segundo o levantamento clínico do veterinário Jan Bellows, especialista certificado em odontologia veterinária pelo AVDC, embora incisivos e caninos tenham apenas uma raiz, cerca de 40% dos segundos pré-molares superiores apresentam duas raízes (às vezes fundidas), e o quarto pré-molar superior chega a ter três raízes (Bellows, Today’s Veterinary Practice). Esse tipo de variação anatômica é exatamente o motivo pelo qual extrações em gatos exigem radiografia prévia: sem saber quantas raízes um dente tem, é fácil deixar fragmento para trás.

A dentição de leite: quando e como os dentes do filhote aparecem

Filhotes nascem sem nenhum dente. Os primeiros dentes de leite, ou decíduos, começam a irromper por volta das 2 a 3 semanas de vida, primeiro os incisivos, depois os caninos (3 a 4 semanas) e por último os pré-molares (3 a 6 semanas), conforme cronograma documentado pelo Texas Veterinary Dental Services. Por volta das 6 a 8 semanas, o filhote já tem sua boca de leite completa, com 26 dentes no total (a fórmula decídua não inclui molares, que só aparecem na fase adulta).

A troca para os dentes permanentes começa entre os 3 e 4 meses de idade. Um dos estudos mais citados sobre esse processo é o de Berman (1974), publicado na Laboratory Animal Science, que mapeou o padrão e o tempo de erupção dos dentes permanentes em gatos. De forma geral, a dentição adulta completa-se por volta dos 6 a 7 meses. Se você encontrar um dentinho caído pela casa nessa fase, é só sinal de que o desenvolvimento está seguindo o curso esperado.

Por que esse número é diferente do nosso e do dos cães

Humanos têm 32 dentes (contando os sisos) e cães têm 42. Essa diferença não é aleatória, ela reflete a dieta de cada espécie ao longo da evolução. Os gatos são carnívoros estritos, e isso aparece literalmente na boca deles. Diferente de nós, que trituramos alimentos com movimentos laterais da mandíbula, a articulação temporomandibular do gato permite basicamente apenas movimento vertical, de abrir e fechar. Por isso eles não mastigam de fato: cortam a carne em pedaços e engolem.

Os pré-molares e o molar superior funcionam como tesouras, conhecidos tecnicamente como “dentes carniceiros” (carnassiais), adaptados para cisalhar tecido muscular, não para esmagar grãos ou vegetais como ocorre em herbívoros e onívoros.

O que a ciência mostra sobre problemas dentários em gatos

Aqui está um dado que costuma surpreender: segundo dados frequentemente atribuídos ao AVDC, cerca de 80% dos pets já apresentam algum sinal de doença bucal por volta dos 3 anos de idade. Os números exatos de prevalência variam bastante entre os estudos, e essa variação é ela mesma uma informação importante.

Uma revisão publicada em 2023 no Journal of Feline Medicine and Surgery, conduzida por O’Neill e colaboradores com dados do programa VetCompass do Reino Unido (18.249 gatos de uma base de mais de 1,2 milhão de animais), encontrou uma prevalência anual de doença periodontal diagnosticada em consultas de rotina de 15,2%, com prevalência geral de doenças dentárias de 21,2%. Os autores destacam que a idade foi o principal fator de risco identificado, com o risco aumentando de forma constante até por volta dos 12 anos.

Porém, o mesmo artigo observa que a prevalência de periodontite relatada na literatura varia entre 13,9% e 96%, dependendo dos critérios diagnósticos e da forma como a população de gatos foi avaliada. Isso porque exames clínicos rápidos em consulta tendem a captar bem menos casos do que avaliações completas sob anestesia, com sondagem periodontal e radiografia de cada dente.

Esse segundo tipo de avaliação, mais minuciosa, é justamente o que mostra números mais alarmantes. Em um estudo de 2009 publicado no Journal of Veterinary Dentistry, Girard, Servet, Biourge e Hennet examinaram detalhadamente uma colônia de 109 gatos considerados clinicamente saudáveis na França: 96% deles apresentavam algum grau de inflamação periodontal, apenas 4% estavam livres de gengivite, e 13% já tinham periodontite agressiva. Dentes ausentes, sinal de perda dentária prévia, foram encontrados em 34% dos animais.

Outro vilão recorrente é a reabsorção dental felina (também chamada de lesão odontoclástica reabsortiva, ou TR/FORL), uma condição em que o próprio organismo do gato passa a destruir a estrutura do dente, começando geralmente na linha da gengiva. Lund e colaboradores (1998), em um estudo de referência publicado no Journal of the American Veterinary Medical Association, identificaram a condição em 48% dos gatos com mais de um ano de idade.

Bellows, em sua revisão clínica, resume que mais da metade dos gatos com mais de três anos terá pelo menos um dente afetado por reabsorção ao longo da vida. DuPont e DeBowes (2002), no Journal of Veterinary Dentistry, propuseram que existem padrões distintos da doença: um tipo mais associado à inflamação periodontal, e outro possivelmente ligado a trauma mecânico repetitivo, como o causado por ração seca muito dura mastigada sempre do mesmo lado.

O que realmente funciona na prevenção, segundo os estudos

A boa notícia é que existem dados concretos, não apenas recomendações genéricas, sobre o que ajuda.

Um estudo conduzido no Waltham Centre for Pet Nutrition (Ingham, Gorrel, Blackburn e Farnsworth, 2002, publicado no Journal of Nutrition) acompanhou gatos por dois anos comparando escovação diária com ausência de escovação. O grupo sem escovação apresentou piora progressiva e estatisticamente significativa do índice gengival ao longo do tempo, enquanto o grupo escovado manteve a condição gengival mais estável. Ou seja: a escovação tem efeito mensurável, não é só “fazer por fazer”.

O desafio, reconhecido pelos próprios pesquisadores da área, é a adesão: gatos, em geral, toleram escovação bem pior do que cães, e a taxa de tutores que mantêm o hábito a longo prazo é baixa. Por isso, métodos complementares ganharam atenção científica. Gorrel, Inskeep e Inskeep (1998), no Journal of Veterinary Dentistry, testaram um “petisco de higiene dental” e encontraram redução mensurável no acúmulo de placa e tártaro em gatos que o receberam regularmente, mesmo sem escovação associada.

Na prática, isso se traduz em algumas frentes que podem ser combinadas:

  • Escovação , idealmente diária ou ao menos algumas vezes por semana, com escova ou dedeira própria para pets e pasta formulada para animais (pasta humana é tóxica para gatos).
  • Petiscos e rações com ação mecânica comprovada sobre placa e tártaro, sempre verificando se o produto tem aval de organizações como o Veterinary Oral Health Council (VOHC).
  • Avaliação veterinária periódica, com radiografia quando indicado, já que boa parte da doença periodontal e da reabsorção dental só é detectável abaixo da linha da gengiva.
  • Limpeza profissional sob anestesia, necessária quando já há tártaro subgengival ou lesões estabelecidas, algo que nenhum cuidado em casa consegue resolver.

Quando procurar um veterinário

Mau hálito persistente, baba em excesso, dificuldade ou recusa para comer, mastigação só de um lado da boca e mudanças de comportamento associadas à alimentação são sinais que merecem avaliação. Como os gatos disfarçam bem a dor, esses sinais costumam aparecer só quando o problema já está em estágio avançado, o que reforça a importância dos check-ups regulares mesmo sem sintomas visíveis.

No fim das contas, contar os 30 dentinhos do seu gato é só a porta de entrada. Entender o que a pesquisa veterinária já descobriu sobre essa boca, e usar isso para guiar os cuidados do dia a dia, é uma forma concreta de dar mais qualidade de vida ao seu felino.

Fontes

  • Bellows, J. Gatos não são cães quando se trata de odontologia . Today’s Veterinary Practice / VetFolio.
  • Serviços Odontológicos Veterinários do Texas. Erupção dos dentes decíduos (de leite) em gatos e erupção dos dentes permanentes (adultos) em gatos .
  • Berman, E. (1974). O tempo e o padrão de erupção dos dentes permanentes do gato. Ciência de Animais de Laboratório , 24(6), 929–931.
  • American Veterinary Dental College (AVDC). Nomenclatura odontológica veterinária — avdc.org.
  • O’Neill, DG, Blenkarn, A., Brodbelt, DC, Church, DB, & Freeman, A. (2023). Doença periodontal em gatos sob cuidados veterinários primários no Reino Unido: frequência e fatores de risco. Journal of Feline Medicine and Surgery . https://doi.org/10.1177/1098612X231158154
  • Girard, N., Servet, E., Biourge, V., & Hennet, P. (2009). Estado de saúde periodontal em uma colônia de 109 gatos. Journal of Veterinary Dentistry , 26(3), 147–155. https://doi.org/10.1177/089875640902600301
  • Lund, EM, Bohacek, LK, Dahlke, JL, et al. (1998). Prevalência e fatores de risco para lesões reabsortivas odontoclásticas em gatos. Journal of the American Veterinary Medical Association , 212(3), 392–395.
  • DuPont, GA, & DeBowes, LJ (2002). Comparação da periodontite e substituição radicular em dentes de gatos com lesões reabsortivas. Journal of Veterinary Dentistry , 19(2), 71–76.
  • Ingham, KE, Gorrel, C., Blackburn, JM, & Farnsworth, W. (2002). O efeito da escovação dentária na doença periodontal em gatos. The Journal of Nutrition , 132(6 Supl 2), 1740S–1741S.
  • Gorrel, C., Inskeep, G., & Inskeep, T. (1998). Benefícios de um ‘Petisco de Higiene Dental’ na saúde periodontal de gatos. Journal of Veterinary Dentistry , 15(3), 135–138.

Gabriel S. Santos