Atualizado em junho de 2026

Num cenário de segurança pública marcado por desafios crescentes, uma unidade da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) se destaca não pelo tamanho, mas pela eficiência, o Batalhão de Ações com Cães (BAC).

Os cães treinados do BAC já participaram de operações que renderam as maiores apreensões de drogas da história do Brasil. E a história que eles ajudam a escrever começa bem antes do que a maioria imagina.

Mais de 70 Anos de História

O BAC foi criado em 1955, tornando-se uma das unidades mais antigas da corporação fluminense. Ao longo de sete décadas, a unidade já chegou a contar com cerca de 20 especialidades diferentes, adaptando-se às demandas de cada época.

Subordinado ao Comando de Operações Especiais (COE), o batalhão tem sede no bairro de Olaria, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e sua área de atuação abrange todo o estado.

Segundo informações da própria PMERJ, o BAC é hoje a unidade da corporação que mais apreende drogas em operações, e os números comprovam isso.

Cinco Frentes de Atuação

Depois de passar por uma profunda reformulação operacional, o BAC concentrou seus esforços em cinco áreas estratégicas:

  • Busca de armas, drogas e explosivos
  • Intervenções táticas
  • Retomada e resgate de reféns
  • Busca e captura de pessoas
  • Controle de distúrbios civis

A decisão de focar nessas cinco frentes foi responsável por uma virada nos resultados. O coronel Marcelo Francisco Nogueira Martins, que comandou o BAC por anos, explicou a lógica por trás da mudança:

“Focamos nossos esforços nas áreas que teríamos melhores resultados e trariam maiores benefícios para a sociedade. Das diversas possibilidades de emprego do uso da força canina, vimos que teríamos mais êxito em cinco.”

— Coronel Marcelo Francisco Nogueira Martins, comandante do BAC (Fonte: PMERJ/Revista Operacional, novembro de 2015)

A reorganização foi tão bem-sucedida que resultou em um aumento de 20 vezes na apreensão de armas e drogas, segundo o Wikipedia da unidade, com base em registros da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Por duas vezes, o BAC venceu o prêmio da Secretaria de Segurança por superar indicadores estratégicos na categoria de unidades especializadas.

De 105 Quilos a Toneladas: A Virada Histórica

Em 2010, o BAC apreendeu pouco mais de 105 quilos de drogas no ano inteiro. Parecia muito, até que a reformulação mostrou o real potencial da unidade.

Em 2015, entre janeiro e setembro, o número saltou para 7,1 toneladas. O marco que inaugurou essa transformação, segundo o próprio coronel Nogueira, foi a ocupação da comunidade do Santa Marta, em 2008, quando o BAC entrou pela primeira vez para apoiar o BOPE e o Batalhão de Choque em uma operação de pacificação.

“Redirecionamos a aplicação, fazendo primeiro a divulgação dentro da corporação. Desde então, a unidade passou a estar presente em todas as ações de pacificação.”

— Coronel Marcelo Nogueira, comandante do BAC (Fonte: PMERJ, novembro de 2015)

Em 2022, o BAC bateu outra marca: 12,7 toneladas de drogas apreendidas ao longo do ano. Só no primeiro semestre de 2023, já havia acumulado 7,3 toneladas, segundo nota oficial da PMERJ publicada em julho daquele ano.

O Cão que Fez História: O Caso do Hulck na Maré

Em abril de 2026, o nome de um cão pastor belga de malinois de cinco anos chamado Hulck ganhou destaque nacional.

Durante uma operação no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, policiais do BAC observaram uma mudança no comportamento do animal próximo a uma construção abandonada. O cão havia farejado algo. Os policiais foram verificar.

O que encontraram quebrou todos os recordes: 48 toneladas de maconha escondidas em uma laje, dentro de um bunker do tráfico, avaliadas em aproximadamente R$ 50 milhões. Foi a maior apreensão de drogas da história do Brasil, superando o recorde anterior de 36,5 toneladas, que havia ocorrido no Mato Grosso do Sul em 2021.

Junto às drogas, foram encontrados quatro fuzis e quatro pistolas. O material foi retirado em cerca de cinco horas com o auxílio de quatro caminhões.

De acordo com a Agência Brasil (EBC), ao longo da operação, uma equipe do BOPE foi atacada por criminosos armados, iniciando um confronto. Um suspeito foi atingido e detido sob custódia.

O secretário e comandante-geral da PMERJ, coronel Sylvio Guerra, avaliou a ação em nota oficial:

“Essa apreensão recorde é resultado de uma ação cirúrgica da Polícia Militar, evidenciando toda a capacidade técnica e operacional. Através do planejamento, inteligência e da atuação especializada do Batalhão de Ações com Cães e de todas as unidades envolvidas na operação, atingimos um resultado expressivo para o enfraquecimento das organizações criminosas e, principalmente, sem efeitos colaterais. Com isso, a Polícia Militar aplica mais duro golpe no tráfico de drogas.”

— Coronel Sylvio Guerra, secretário e comandante-geral da PMERJ (Fonte: PMERJ, abril de 2026)

Os Cães: Raças, Treinamento e o Vínculo com os Policiais

O BAC trabalha com animais de raças reconhecidas por sua capacidade olfativa, agilidade e obediência. Entre elas estão o pastor belga de malinois a mesma raça do Hulck, o pastor holandês, o pastor alemão, o labrador, o braco alemão e o rottweiler, conforme publicação oficial da PMERJ.

Os cães são treinados para identificar drogas, armas e explosivos por meio do faro, e a recompensa é o principal motor do aprendizado: quando acertam, são premiados com brincadeiras e afeto. Para explosivos, há uma regra adicional importante, o animal não pode latir ou correr ao identificar o material, garantindo a segurança de toda a equipe.

Cada cão trabalha em parceria com um policial adestrador e condutor especializado, formando o que se chama de binômio homem-cão. Essa dupla é inseparável, e o vínculo vai muito além do trabalho.

O subtenente reformado Sérgio Sebastião da Silva, que dedicou 40 dos seus 61 anos de vida ao BAC, descreveu assim a essência dessa relação:

“Não é só você saber adestrar, tem que ter um quê a mais, que é saber lidar com o cão, saber buscar nele o seu aprendizado.”

E complementou, falando sobre o espírito da unidade:

“Aqui existe a amizade de homem-cão e também existe a amizade do homem com o homem. E isso é importante em um grupo.”

— Subtenente PM reformado Sérgio Sebastião da Silva (Fonte: PMERJ/Imprensa Oficial do Estado do RJ, novembro de 2015)

Silva ficou famoso dentro da corporação por nunca ter pedido transferência. Segundo ele mesmo:

“Sou o único que entrou no canil e não saiu mais, a não ser para fazer cursos.”

Um dos momentos mais marcantes de sua carreira foi em 2001, quando, com a ajuda do cão Athos, localizou os restos mortais do jornalista Tim Lopes, morto pelo tráfico na Vila Cruzeiro.

Expansão para o Interior: A Base de Macaé

Por décadas, o BAC operou praticamente apenas na Região Metropolitana do Rio. Isso começou a mudar em julho de 2023, quando foi inaugurada, em parceria com a Prefeitura de Macaé, a 2ª Companhia Destacada do BAC, a primeira base da unidade no interior do estado.

Com 1.300 metros quadrados de área construída, a sede conta com instalações administrativas, alojamento, clínica veterinária, canil e campo de treinamento e adestramento.

O prefeito de Macaé, Welberth Rezende, celebrou a conquista:

“Somos a primeira cidade do interior do Estado a contar com uma companhia do BAC que se torna hoje uma nova referência em segurança pública para a nossa cidade, unificando o trabalho promovido pelo nosso governo junto às forças de segurança do Estado.”

— Welberth Rezende, prefeito de Macaé (Fonte: Prefeitura de Macaé, julho de 2023)

O vice-governador Thiago Pampolha, que representou o governo estadual na inauguração, destacou o alcance simbólico da iniciativa:

“A 2ª CIA do BAC já é um legado da reconstrução do Estado através do interior, do desafio assumido por esta cidade que representa a nova história de desenvolvimento do Rio de Janeiro.”

— Thiago Pampolha, vice-governador do Estado do Rio de Janeiro (Fonte: PMERJ, julho de 2023)

Referência Nacional e Internacional

O BAC não é reconhecido apenas dentro do Brasil. A unidade já ministrou quatro edições do curso de faro para a Secretaria Nacional de Segurança Pública e recebe regularmente visitantes de países da América Latina e da Europa, que vêm conhecer suas técnicas e metodologias de treinamento canino.

Durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o batalhão recebeu investimento de R$ 500 mil para aquisição de novos cães de alto nível, ampliando seu efetivo de 160 para 280 animais, segundo a Wikipedia da unidade, com base em registros públicos da PMERJ.

Conclusão: Quando o Faro Vale Mais que Qualquer Tecnologia

O BAC é prova de que, na segurança pública, algumas das ferramentas mais poderosas não têm circuitos nem baterias, elas têm pelos, patas e um olfato que nenhuma máquina ainda conseguiu replicar.

Em 70 anos de história, a unidade passou de uma tropa voltada ao policiamento de praias e praças públicas para um dos batalhões mais respeitados do país, responsável pelas maiores apreensões de drogas já registradas no Brasil.

E tudo isso começa com um cão que muda de comportamento diante de uma parede suspeita, e com o policial que sabe ler esse sinal.

Fontes consultadas

  • PMERJ — Secretaria de Estado de Polícia Militar do RJ: sepm.rj.gov.br
    • “Batalhão de Ações com Cães registra resultados históricos” (03/11/2015)
    • “BAC se especializa em cinco áreas de atuação” (06/11/2015)
    • “BAC da Polícia Militar ganha Companhia Destacada em Macaé” (28/07/2023)
    • “Polícia Militar apreende 48 toneladas de drogas no Complexo da Maré” (08/04/2026)
  • Agência Brasil (EBC): “RJ: Operação na Maré apreende recorde de 48 toneladas de drogas” (08/04/2026) — agenciabrasil.ebc.com.br
  • Metrópoles: “PM do Rio apreende quase 50 toneladas de maconha em bunker concretado” (08/04/2026) — metropoles.com
  • Diário do Rio: “Quem é Huck, o cão farejador da PM que achou bunker com 48 toneladas de maconha na Maré” (08/04/2026) — diariodorio.com
  • Prefeitura de Macaé: “Macaé e Estado inauguram Batalhão de Ação com Cães” (julho de 2023) — macae.rj.gov.br
  • Wikipedia: “Batalhão de Ações com Cães” — pt.wikipedia.org
  • Revista Operacional: “BAC se especializa em cinco áreas de atuação” — revistaoperacional.com.br

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